8.9.10

hoje o céu estava numa cor linda, não tão diferente, mas completamente diferente, entende?
vermelho varrido, rajado, branco colorido de sangue.
consegui pegar um trem mais cedo que o normal, pensando na vida e além dela.
em motivos e desculpas. em conversas fiadas. Palavras vazias.
passei pelo parquinho, recém fundado, no caminho de casa. Sempre cheio de crianças, de mães e até mesmo, pais.
Uma cena nem um pouco comum nesse país.
Eu estava justamente pensando em palavras póstumas, como é difícil para se escrever, descrever, transferir sentimentos em palavras, quando se trata de uma morte distante.
E aquela cena, nem um pouco comum, de afeto, me trancou a garganta.
Uma grande amiga minha perdeu seu primeiro filho, semana passada. Num dia ensolarado, como não deveria ser nenhum dia de morte.
Uma morte não nascida, não criada. Uma vida que deveria ter sido ,mas não foi. Ou então, não deveria mesmo, mas nunca iremos saber...
Mas o que mais me incomoda é como o fato de uma pessoa doce e conhecida passar por essa dor. Na verdade, a dor em si irá suavizar...Mas...
As tragédias tem uma característica apetitosa para a maioria das pessoas: O sensacionalismo.
Eu acho bizarro algo acontecer e as pessoas simplesmente não conseguirem desviar a atenção e o assunto daquilo.
Claro que não espero que evitem o assunto como doença, mas eu penso, uma mulher que desejava ter essa criança, sonhava, alimentava...respirava maternidade...
Perder assim, tão absurdamente, tão naturalmente...a dor que não deve ser?
Enfim, mas acredito que a dor maior será ter que enfrentar o mundo.
O mundo já é assustador por si mesmo, mas quando se tem o acontecimento do mês nas mãos do público, ah!que banquete...
Como eu disse, um dia a dor irá suavizar...Mas e enquanto ela está na ferida, sangrando? Carne viva, pronta pra ser cutucada?
Como não será doloroso, ter que enfrentar o mundo...Pois por mais que se adie, um dia terá que voltar a ele, e então...ter que encarar a piedade, a (muito mais que qualquer outra coisa) curiosidade das pessoas, ter que ouvir e explicar a perda em palavras...vazias..quando a ferida está começando a cicatrizar...como não será?
Mas o que eu realmente quero dizer..as palavras que eu daria se pudesse...
É que nunca saberemos realmente o que poderia ter sido.
A vida, como o dito popular diz, é uma caixinha de surpresas, nem sempre agradável.
Mas temos um ciclo inabalável, embora soe injusto, é a verdade.
Os dias irão passar, e a dor irá sempre estar presente, ainda mais quando encarada nos olhos das pessoas...
A dor poderá não passar nunca, mais ela ira suavizar...Ela irá cedendo aos poucos, espaço para novas lembranças, se seu coração estiver disposto a isso.
Então, quando a tempestade tiver passado, embora a terra esteja molhada, e tudo ainda esteja um pouco cinza, o ar estará mais puro, mais leve. A vida poderá ser brilhante novamente.
Pra tudo na vida, temos que ceder espaço em nosso coração, nas prateleiras das lembranças, sejam coisas boas ou não.
E quanto maior for o espaço, mais lembranças virão. E você verá como cada lição foi bem aprendida.
Não temos idéia dos motivos, dos porques, e só nos resta imaginar, lamentar e tentar seguir em frente da melhor maneira possível.
Só nos resta ser forte, embora possamos contar com o apoio de pessoas queridas...Temos que ser fortes para nos sustentar, de dentro pra fora.
E então, deixar a vida correr o seu próprio curso.
A vida se encarrega de cada folha que cai. Cada dia que passar, embora difícil no começo, irá valer a pena.
Apenas não se deve perder a esperança, não se deve entregar à desilusão...ao desespero.
Pois o que um dia poderia ter sido, será.
Talvez nao da mesma forma, e não com as mesmas emoções, mas ainda assim, será.

Nenhum comentário:

Postar um comentário